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sábado, 10 de agosto de 2013

Coletivos culturais e organizações horizontais: alternativa para um desenvolvimento socialmente justo no Brasil?


Uma das contribuições da Revolta do Vinagre foi a divulgação das organizações sociais organizadas de forma horizontal pela mídia tradicional para o grande público. O Movimento Passe Livre (MPL) foi o primeiro que se destacou nas manifestações de junho de 2013, devido à luta contra a redução da tarifa do ônibus, inicialmente na cidade de São Paulo. Os famosos 20 centavos se tornaram a pauta principal de diversas manifestações espalhadas pelo Brasil. O MPL tem como princípio ser um movimento horizontal (sem hierarquia), autônomo, independente e apartidário, mas não antipartidário. Com o aumento da violência da polícia militar, outros grupos começaram a se destacar nos movimentos, dentre eles a Mídia Ninja que se propõe a realizar “Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação”. É um coletivo cultural que se tornou mais conhecido pelas transmissões ao vivo, através da Pós TV e da TwitCasting, das manifestações amplificadas antes e durante a Copa das Confederações da FIFA de 2013. A Pós TV e a Mídia Ninja são coletivos culturais apoiados pelo Fora do Eixo que organiza diversos eventos culturais pelo Brasil. Os coletivos culturais, em geral, se definem como uma organização comunitária que conta com o trabalho colaborativo para a democratização e integração de projetos culturais, valorizando iniciativas locais, e usam as redes sociais da Internet para a divulgação dos eventos culturais (notadamente, Facebook e Twitter). A Mídia Ninja é um dos projetos associados ao Fora do Eixo que foca o jornalismo independente, sendo um representante do movimento “Midialivrismo”. O Fora do Eixo, aparentemente, cresceu tanto em número de projetos, pessoas participando em grupos locais (“casas”), em público assistindo aos shows e em dinheiro circulante que a organização horizontal está sob ameaça. A repercussão da entrevista do representante do Fora do Eixo, Pablo Capilé, e do representante da Mídia Ninja, Bruno Torturra, no programa de TV “Roda Viva”, no dia 5/08/2013, demonstra as diferenças de proposta dos dois coletivos culturais. As denúncias sobre o Fora do Eixo depois desse programa estão surgindo nas redes sociais, enquanto que a Mídia Ninja tenta se distanciar do coletivo coordenado pelo Pablo Capilé. Ideias teóricas lindas podem ser tornar um pesadelo na prática porque dependem de pessoas para serem realizadas. Dessa forma, acredito que não existe nenhum modelo teórico perfeito (se existir algum) que quando aplicado ao mundo real se torne imperfeito pelos mais diversos motivos. Com base nesse axioma, não é saudável idolatrar, endeusar, colocar alguém em um pedestal, ou seja, tornar alguém um modelo ideal de conduta e exemplo de tudo de bom que você acredita. A idolatria a um modelo ou ideologia aplicada também tem seus riscos porque ocorre a troca da visão crítica pela crença cega sobre algum tema, ou fato, ou evidência. Historicamente, todos conhecemos alguns eventos que mostram quão longe a crença cega pode chegar, em geral, de forma destrutiva para a maior parte da população. Não quer dizer que os modelos ideológicos teóricos não tenham elementos interessantes a serem aproveitados. Eu acredito que a Metáfora da Caixa de Bombom resume bem a ideia que todas as ideologias ou projetos sociais tem algumas propostas interessantes e outras desinteressantes para cada um de nós. Os coletivos culturais e as organizações horizontais não são modelos perfeitos e, por isso, apresentam falhas, mas mostram a carência de representação da maioria da população e a necessidade de participação de parte dessa população, especialmente os jovens que precisam falar e demandam serem ouvidos. Na minha opinião, essas carências alimentam a formação de coletivos que atuam nas áreas culturais, ambientais e políticas, e que tendem a atuar mais intensamente em outras, como científicas, educacionais. As redes sociais amplificam a divulgação e participação desses coletivos, repercutindo e influenciando nas decisões políticas e na opinião dos diferentes setores da sociedade, retroalimentando os movimentos sociais. Nas redes sociais, a organização é praticamente horizontal, onde cada usuário tem sua voz, sua chance de expor suas opiniões e ser ouvido por um número maior de pessoas do que seus amigos ou seguidores. Algumas opiniões podem ser tornar virais, se espalhando como ampla e rapidamente, dependendo de como se dá a repercussão da publicação e outros fatores, de forma quase imprevisível. Esse meio de dispersão de informações altera a determinação de quem são os formadores de opinião. A maior participação abre o debate para diversos temas. Algumas pessoas se tornam líderes rapidamente com diversos seguidores e amigos, que ouvem suas opiniões. De certa forma, aumenta o poder de mais pessoas, podendo ser um fortalecimento da democracia e da participação política no Brasil, pelo menos para aqueles que tem acesso às redes sociais. O acesso vem aumentando muito com os celulares com Internet. O aumento de participação e a necessidade de ser ouvido acarretam a busca por soluções de problemas coletivos nas escalas local, regional, nacional, continental e mundial. Em oposição a essa evolução acelerada da comunicação e do acesso à informação estão os modelos tradicionais de política, de cultura e dos demais setores da sociedade, que apresentam um ritmo mais lento de resposta, de ação e de mudança (mesmo com vontade política) porque as estruturas de organização política, econômica e social são burocráticas, hierarquizadas e pouco eficientes. O contraste entre o mundo virtual e o mundo institucional é tão grande que o conflito era inevitável. A Revolta do Vinagre se diversificou em diversos movimentos que demonstram as insatisfações de vários setores da sociedade. As respostas dos setores do governo municipal, estadual e federal sobre as manifestações foram distintas: confronto e opressão x controle com diálogo. Espero que a pressão das massas nas ruas e nas redes sociais continue modificando as atitudes dos setores do governo, e que essas mudanças de atitude mostrem para mais pessoas que a pressão funciona para melhor o funcionamento do Estado e a qualidade de vida de toda a população. Só assim, essa pressão vai continuar até as eleições e gere representantes mais conscientes da força da voz do povo amplificada pela Internet. Outro resultado que espero da Revolta do Vinagre é o aumento de ações locais independentes do governo, de ONGs e de empresas; com impactos nos mais esquecidos recantos do Brasil. Se cada um dos cidadãos brasileiros tomarem ciência da força que tem quando organizados em pequenos grupos organizados em rede e horizontalmente (divisão do trabalho mais igualitária) e que para conseguirem o que necessitam devem sair da passividade usual, quando se espera a ajuda de alguém (governo, empresa, ONG), o Brasil muda completamente. Não tenho a visão liberal, onde quem não busca o sucesso é um perdedor, e os perdedores não merecem ajuda. Prefiro a visão social-democrata (no sentido da Alemanha), quando todo cidadão deve ter o direito de uma vida digna (educação, saúde, alimentação, infraestrutura básicos), e essa garantia é dada pelo governo. Com o básico, qualquer cidadão tem as mesmas chances de escolher o estilo de vida que deseja, com a justiça regulando os excessos. As organizações coletivas locais são uma das formas de construir um mundo melhor ao seu redor com as próprias mãos. Quanto mais passivo, mais esquecido você se torna. Quanto mais ativo, quanto mais organizado em rede, maior é o impacto e mais alto, claro e distante você será ouvido. Para isso acontecer, o governo deve escutar e dialogar com os coletivos para executar as ações para atingir as condições básicas de vida digna. As empresas devem ter maior participação nas atividades realizadas pelos coletivos, as viabilizando economicamente. As informações de todos os setores devem ser transparentes para que a confiança no funcionamento da rede cresça e se mantenha estável. Todo trabalho em colaboração depende de confiança, dessa forma, nos sistemas horizontais quando a confiança é quebrada, a tendência é a falência do coletivo. Quanto mais numerosos forem os coletivos, menos centralizados (com mais nós, muitos núcleos) forem, menos hierarquizados e dependentes de poucas pessoas tendem a ser, e assim, mais democráticos e socialmente justos serão. O novo mundo das organizações horizontais está posto e espero que seja mais equilibrado social, econômica e ambientalmente.


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